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Terapias Assistidas com Equinos: diretrizes clínicas para uma prática ética, integrada e baseada em evidências

Foto do escritor: Giulia Policastro
Giulia Policastro
há 3 minutos
8 min de leitura

As Terapias Assistidas com Equinos constituem uma possibilidade de intervenção clínica diferenciada,  que exige um conjunto de propostas e condutas para a pessoa assistida (indivíduo, família ou grupo), um projeto terapêutico singular (PTS), conhecimento profissional, observação contínua e responsabilidade ética. 


É importante entender que o ambiente equestre não constitui um cenário alternativo para a realização de atividades, mas configura-se como um espaço legítimo de intervenção clínica.


Não se trata de transferir o atendimento convencional para um ambiente diferente. A ideia é construir o cuidado e o tratamento de maneira integrada às características inerentes ao contexto equestre e tudo que ele carrega consigo em termos de oportunidade de intervenção. 


Para a construção de uma boa intervenção na prática clínica com equinos, é necessário:

  • conseguir integrar as evidências disponíveis e a experiência clínica, desde o momento da avaliação até a intervenção;

  • ter clareza sobre os objetivos terapêutico;

  • levar em conta a necessidade e expectativa da pessoa (família) ou grupo assistido,

  • saber selecionar o(s) equino(s) de intervenção com base em seus atributos físicos/comportamentais e habilidades,

  • respeito ao bem-estar único,

  • ter critérios claros para avaliar os resultados.


Dimensões da intervenção

As intervenções assistidas com equinos apresentam possibilidades de trabalho em diferentes dimensões da saúde, incluindo aspectos sensório-motores, funcionais, psíquicos, comunicativos e relacionais. 


Entretanto, reconhecer esse potencial exige compreender que a presença do cavalo não transforma automaticamente uma atividade em intervenção terapêutica.


O atendimento não deve ser compreendido como uma sequência de técnicas ou atividades previamente estabelecidas, mas como um processo dinâmico, no qual cada escolha precisa estar relacionada às necessidades da pessoa assistida e às condições do cavalo.


Essa perspectiva desloca o foco da execução de atividades para a compreensão de suas finalidades. Mais importante do que perguntar qual exercício será realizado é compreender por que ele foi escolhido, qual resposta se espera alcançar e quais indicadores permitirão avaliar se a intervenção está produzindo o efeito pretendido.


E nesse processo, o profissional tem a responsabilidade de reconhecer os limites da própria atuação, adaptar o planejamento diante de mudanças e interromper a intervenção quando sua continuidade deixa de ser apropriada e segura.


Assim, a qualidade terapêutica não está necessariamente relacionada à quantidade de atividades realizadas ou ao tempo de permanência sobre o cavalo, mas à adequação das decisões clínicas.


A clareza sobre o objetivo terapêutico é a base da intervenção

A avaliação constitui o ponto de partida para a definição dos objetivos terapêuticos. É necessário conhecer as capacidades, as limitações, as necessidades atuais e as prioridades de cada pessoa assistida e sua família antes de selecionar a intervenção.


Os objetivos devem ser específicos e não generalistas, relevantes, mensuráveis e relacionados à participação ou à funcionalidade. Esses objetivos orientam a escolha do cavalo, quais tarefas serão executadas (montadas e/ou do chão), os recursos de apoio e a organização do atendimento.


Sentar sobre o cavalo, mudar de posição ou realizar determinado exercício descreve uma ação. Entretanto, não esclarece qual aspecto funcional ou clínico se pretende favorecer.


A mesma atividade pode representar demandas completamente diferentes para duas pessoas, assim como um mesmo objetivo pode exigir estratégias distintas conforme as características e as respostas de cada pessoa assistida.


A principal reflexão é que a atividade precisa estar subordinada ao objetivo terapêutico, e não o contrário. 


Quando a prática se organiza pela repetição de exercícios conhecidos, sem justificativa individualizada, existe o risco de manter procedimentos que já não correspondem às necessidades da pessoa assistida. 


Os objetivos também não devem ser considerados definitivos. A observação durante os atendimentos pode indicar a necessidade de revisar o planejamento, modificar a estratégia ou até reconsiderar a pertinência da intervenção.


A observação clínica e o reconhecimento da sobrecarga

Existe a necessidade de diferenciar uma resposta funcional de uma resposta compensatória ou de proteção diante de uma demanda excessiva.


A aparência externa da pessoa assistida nem sempre revela a qualidade de sua organização corporal e emocional. Uma pessoa pode parecer mais alinhada, estável e concentrada, mas estar utilizando rigidez muscular e esforço mental excessivo para manter-se a cavalo.


A participação aparentemente satisfatória não exclui a possibilidade de sobrecarga. Da mesma forma, o prazer demonstrado durante a interação com o cavalo não garante que as demandas físicas, sensoriais ou emocionais sejam adequadas.


Essa reflexão é particularmente importante porque a interpretação equivocada de uma resposta pode levar o profissional a aumentar a complexidade ou prolongar a atividade justamente quando seria necessário reduzir as exigências. 


O desafio na medida certa durante a intervenção exige dos profissionais grande conhecimento sobre a prática clínica com a participação dos cavalos e não só sobre pessoas e desenvolvimento humano.


A sobrecarga também precisa ser observada no cavalo. Mudanças sutis na postura, no comportamento, na simetria ou na qualidade do movimento podem indicar desconforto, tensão ou fadiga, mesmo quando o animal continua seguindo as orientações do condutor.


Portanto, a observação clínica deve contemplar simultaneamente a pessoa assistida e o equino. A qualidade da intervenção depende da capacidade do profissional de identificar quando o desafio favorece a adaptação e quando passa a produzir respostas defensivas, compensatórias ou difíceis de recuperar.


O cavalo e a montaria

Muito se fala sobre o movimento do cavalo quando as tarefas utilizadas na intervenção oferecem a montaria. 


Entretanto, o valor clínico do movimento do equino não é automático. Ele depende da qualidade da marcha, do estado físico e emocional do cavalo, de seu treinamento, do ambiente e da adequação da intensidade e da duração da atividade.


Assim como depende do conhecimento do profissional em como manipular intencionalmente esse movimento para produzir ganhos funcionais e não ocasionar danos à pessoa atendida.


Por isso, velocidade, ritmo, duração e progressão devem ser definidos de acordo com o objetivo terapêutico e com a capacidade atual de adaptação da pessoa atendida.


O posicionamento também modifica a intervenção. Sentar, posicionar-se em decúbito ventral, sentar lateralmente, sentar de costas ou ajoelhar sobre o cavalo são possibilidades que produzem diferentes exigências posturais, sensoriais, emocionais e cognitivas.


Essas posições não devem ser escolhidas apenas para diversificar as atividades. Sua utilização precisa apresentar uma justificativa clínica relacionada à avaliação e à resposta esperada.


A reflexão proposta é que nenhuma posição, técnica ou recurso deve ser considerado adequado simplesmente porque é habitual. A escolha precisa ser reavaliada conforme seus efeitos sobre a pessoa assistida e o cavalo.


Equipamentos, equipe e ambiente: elementos que influenciam a qualidade clínica

Detalhes aparentemente pequenos podem modificar a intervenção.


O contato físico do terapeuta, o calçado, a manta, as sela, as alças e os demais equipamentos interferem no posicionamento, na liberdade de movimento, na transmissão dos estímulos, na executabilidade da tarefa e na segurança.


A utilização de um recurso deve estar vinculada a uma finalidade clara. Mais equipamentos ou maior quantidade de apoios não significam necessariamente maior segurança ou melhor resultado clínico. 


A decisão sobre cada equipamento precisa considerar simultaneamente as necessidades da pessoa atendida, as características da atividade e o bem-estar do cavalo.


Outro aspecto essencial é a organização da equipe. O condutor do cavalo, o terapeuta e os auxiliares exercem funções diferentes, mas interdependentes. A comunicação inadequada, as orientações simultâneas e o excesso de intervenções podem aumentar as demandas e comprometer a clareza do atendimento.


Assim, a qualidade da intervenção não depende exclusivamente da competência individual do terapeuta. Ela resulta também da preparação da equipe, da definição de responsabilidades, da organização do ambiente e da capacidade de todos reconhecerem quando uma situação ultrapassa suas competências.


Adaptação, interrupção e avaliação dos resultados

O planejamento prévio é indispensável, mas não pode determinar rigidamente tudo o que acontecerá durante o atendimento.


O estado ou condição da pessoa assistida pode mudar, o cavalo pode apresentar alterações e a resposta observada pode diferir daquela inicialmente esperada.


Nessas circunstâncias, adaptar a intervenção não significa necessariamente que o planejamento foi inadequado. Significa reconhecer novas informações e utilizá-las para orientar decisões clínicas mais apropriadas.


Pode ser necessário mudar a velocidade da passada, modificar o percurso, mudar a posição, ajustar o suporte físico e/ou emocional, simplificar a tarefa, realizar uma pausa ou substituir a atividade por outra forma de interação com o cavalo.


A interrupção também deve ser considerada em situações de desconforto, sofrimento ou dificuldade para recuperar uma resposta funcional, quando o cavalo apresenta sinais de desconforto ou quando a equipe e o ambiente deixam de oferecer condições adequadas e seguras.


Outro aspecto fundamental é compreender que a duração programada não constitui uma obrigação clínica. O atendimento pode ser encerrado quando o objetivo já foi alcançado ou quando a continuidade não oferece benefício adicional.


Após a intervenção, o profissional deve comparar os objetivos estabelecidos com as respostas efetivamente observadas. A realização de todas as atividades previstas não comprova, por si só, que os resultados pretendidos foram alcançados.


A documentação precisa registrar observações relevantes, adaptações realizadas, justificativas para mudanças ou interrupções e respostas da pessoa atendida e do cavalo. É igualmente importante diferenciar fatos observados de interpretações profissionais, evitando registrar suposições como resultados comprovados.


Qualificação profissional e responsabilidade ética

O julgamento e decisão  profissional, são competências desenvolvidas por meio da formação, da experiência, da supervisão e da reflexão contínua.


O diagnóstico fornece informações relevantes, mas não substitui a avaliação personalizada. Pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar capacidades, necessidades e respostas muito diferentes, exigindo intervenções distintas.


A experiência prática é importante, mas não deve transformar hábitos em verdades inquestionáveis. Procedimentos comumente usados precisam continuar sendo avaliados à luz das evidências científicas disponíveis, das respostas observadas e das necessidades atuais de cada pessoa assistida.


Entusiasmo e boas intenções não são suficientes para estabelecer competência clínica.


A formação especializada precisa estar articulada à qualificação profissional prévia, às responsabilidades assumidas e às exigências específicas da atuação com equinos.


Nesse sentido, a qualidade de um curso não pode ser julgada apenas por seu título ou certificado. É necessário considerar a formação dos educadores, a prática supervisionada, a segurança, o bem-estar animal e a preparação para a tomada de decisões.


A responsabilidade ética abrange a pessoa/família assistida, o cavalo, a equipe e a organização do serviço. Reconhecer os próprios limites, buscar supervisão, dialogar com outros profissionais e encaminhar situações que ultrapassam a própria competência são atitudes que demonstram maturidade profissional.


A prática clínica exige muito mais do que a execução de atividades ou o domínio de técnicas

As decisões precisam permanecer conectadas: a avaliação orienta os objetivos; os objetivos orientam a seleção do animal, a escolha das tarefas e atividades; a observação orienta as adaptações; e a avaliação dos resultados fundamenta o planejamento dos atendimentos seguintes.


O cavalo não deve ser tratado apenas como um recurso disponível para a intervenção, mas como um participante cujas condições físicas, emocionais e comportamentais influenciam a qualidade do trabalho e precisam ser continuamente consideradas.


É necessário questionar práticas naturalizadas e justificar cada escolha clínica.


Fazer mais, prolongar uma sessão ou concluir todas as atividades planejadas não representa necessariamente uma intervenção melhor.


A qualidade profissional se manifesta na capacidade de reconhecer necessidades individuais, observar respostas, fundamentar decisões, adaptar estratégias e interromper a atividade quando necessário.


E isso tudo só é possível com uma formação consistente, com prática supervisionada e atualização permanente.


O desenvolvimento responsável dos serviços assistidos com equinos depende de profissionais capazes de integrar conhecimento, evidências disponíveis, experiência, ética e respeito aos limites da pessoa atendida e do cavalo.


Mais do que reproduzir procedimentos, é necessário compreender o sentido de cada intervenção e assumir a responsabilidade pelos seus efeitos.


É nessa capacidade de pensar criticamente, decidir com fundamento e agir com responsabilidade que se constrói uma prática clínica qualificada.



Referência Bibliográfica:


BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. Clínica ampliada e compartilhada. 2. ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2007. (Série B. Textos Básicos de Saúde). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/clinica_ampliada_2ed.pdf 


LANTELME-FAISAN, Vera. Clinical Guide to Equine Assisted Therapy. An Expert Guide to Equine Assisted Therapy and Services, jul. 2026.



 
 
 

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