O papel do médico veterinário nos Serviços Assistidos com Equinos: muito além da saúde dos animais

Quando pensamos na atuação do médico veterinário, é comum associarmos esse profissional aos cuidados clínicos, aos processos de saúde-doença ou aos protocolos sanitários.
Nos Serviços Assistidos com Equinos, entretanto, sua contribuição vai muito além!
Foi justamente essa reflexão que motivou o trabalho desenvolvido por Juliana Barbosa e Sofia Chamelian, apresentado durante a ABRAVEQ 2026, um dos principais congressos da medicina veterinária equina da América Latina.
O trabalho propõe uma discussão extremamente atual: qual é o papel e contribuição do médico veterinário em uma equipe interdisciplinar que atua em parceria com os equinos?
Os Serviços Assistidos com Equinos são, por natureza, uma área de atuação interdisciplinar, construída por diferentes profissões.
Terapeutas, educadores, instrutores, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, profissionais de educação física, zootecnistas e médicos veterinários e tantos outros contribuem com conhecimentos específicos para alcançar um objetivo comum: promover intervenções de qualidade, respeitando as necessidades das pessoas e dos equinos.
Cada profissão possui responsabilidades próprias.
E é justamente essa integração de saberes que fortalece a área.
Bem-estar equino é responsabilidade de toda a equipe.
Embora todos tenham responsabilidade ética pelo bem-estar dos equinos de intervenção, o estudo destaca que o médico veterinário exerce um papel técnico fundamental na manutenção desses indicadores.
A sua atuação envolve muito mais do que tratar doenças. Inclui o monitoramento contínuo da saúde, o acompanhamento das condições físicas e ambientais, a prevenção de problemas, o planejamento sanitário e a orientação da equipe sobre fatores que podem interferir na qualidade de vida dos equinos.
É ele o profissional mais indicado para avaliar e criar estratégias para a construção de boas práticas desde o manejo, treinamento até a entrega do serviço.
Afinal, atender apenas às necessidades básicas do cavalo não é garantia de bem-estar! Um cavalo bem nutrido, hidratado, e com boa saúde não necessariamente tem seu bem-estar garantido.
E quando esse olhar está integrado à rotina do centro, as decisões deixam de ser reativas e passam a ser preventivas. Um olhar global sobre as interações entre humanos e equinos se instaura, baseado e ancorado no Modelo dos Cinco Domínios para o Bem-Estar.
Modelo dos Cincos Domínios
Esse foi um dos pontos centrais do trabalho da Juliana e Sofia (2026), analisar a rotina dos animais de um centro cujos os cavalos prestam serviço de equoterapia à luz do Modelo dos Cinco Domínios para Bem-Estar Equino pela perspectiva do médico veterinário.
Esse modelo amplia a compreensão de bem-estar ao considerar cinco dimensões interdependentes, sendo o estado mental (ou domínio afetivo) considerado o ponto central e o resultado final, porque ele reflete como o cavalo realmente se sente a partir de todas as suas experiências físicas e ambientais.

Mais do que avaliar a ausência de doenças, ou como estão as necessidades básicas, esse modelo considera, de forma prática, como diferentes aspectos do manejo, das interações e da rotina de forma geral, influenciam diretamente a experiência vivida pelos equinos e seu estado mental/ afetivo.
Nos Serviços Assistidos com Equinos, essa visão é especialmente relevante, pois reforça que o bem-estar depende de decisões compartilhadas entre toda a equipe e instaura uma cultura essencial: o bem-estar da pessoa assistida não pode ocorrer em detrimento do bem-estar dos equinos de intervenção.
Veja alguns exemplos aplicáveis tendo em vista os 5 Domínios para o Bem-Estar nos Serviços Assistidos com Equinos:
Nutrição e hidratação: garantir que os cavalos de intervenção sejam adequadamente alimentados e hidratados antes e depois do trabalho com os clientes, evitando mudanças repentinas na dieta ou estresse por restrição alimentar ou de hidratação.
Ambiente físico: garantir tempo seguro para os animais pastarem; baias ou piquetes limpos e proteção contra sol forte, vento ou chuva fora das sessões.
Saúde: consultas veterinárias regulares, cuidados dentários e monitoramento de sinais sutis de desconforto físico ou fadiga relacionados ao transporte ou interação com os clientes.
Interações: permitir que os animais tenham tempo de soltura e de interações positivas com os outros animais de sua espécie, além de garantir que as práticas com os humanos durante as sessões ou aulas contemplem a possibilidade de escolha do animal e reduzam o estresse. Ou seja, observe mais o comportamento do animal e veja aquilo que lhe causa desconforto ou que ele está resistente, evitando fazer, e coloque em prática o plano B ou retire ele momentaneamente do trabalho e investigue sobre os desconfortos. Às vezes só o ajuste da carga horária de trabalho semanal já pode funcionar.
Estado mental/ afetivo: cultivar um estado calmo e positivo, onde o cavalo se sinta seguro, envolvido e disposto, em vez de ansioso ou sobrecarregado durante o trabalho. Aqui é importante pensar que todos da equipe precisam criar uma relação positiva com os animais e conhecê-los de fato, pois, só assim conseguirão entender como cultivar esse estado mental positivo e terem animais dispostos a estar com humanos e mais colaborativos.
Não normalize o fato do equino, frequentemente, se negar a trabalhar ou a estar com a equipe nos Serviços Assistidos com Equinos. Isso é um sinal de alerta que as interações com os humanos possuem um registro mais negativo do que positivo para o animal.
Licença Social para Operar: um compromisso com a sociedade
Outro conceito abordado pelas autoras é a Licença Social para Operar (LSO).
Embora não seja uma licença concedida por órgãos oficiais, trata-se da confiança que a sociedade deposita em uma atividade.
Nos Serviços Assistidos com Equinos, essa confiança está diretamente relacionada à forma como os equinos são tratados.
Quanto maior a transparência, o compromisso com a ciência, a ética e o bem-estar animal, maior tende a ser a legitimidade da área perante a sociedade.
Nesse contexto, o médico veterinário assume um papel estratégico ao contribuir para que as práticas adotadas sejam tecnicamente fundamentadas e alinhadas aos princípios do bem-estar, construindo uma área mais forte.
O trabalho apresentado na ABRAVEQ reforça uma mensagem importante: fortalecer os Serviços Assistidos com Equinos não depende apenas da qualificação individual de cada profissional.
Depende, sobretudo, da capacidade de atuar de forma integrada, reconhecendo as competências de cada área e colocando o bem-estar dos equinos de intervenção no centro das decisões.
Mais do que discutir atribuições profissionais, esse estudo convida a uma reflexão sobre o futuro da nossa área.
Uma área forte se constrói com ciência, interdisciplinaridade, ética e colaboração.
E é justamente essa construção coletiva que permitirá aos Serviços Assistidos com Equinos continuar crescendo de forma responsável e sustentável.
Referência Bibliográfica:
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Manual de boas práticas de manejo em equideocultura. Brasília: MAPA/ACE/CGCS, 2017. 50 p.
Littlewood, K.; Kells, N.; Beausoleil, N.; Mellor, D. (2025). The Importance and Intended Use of the Mental State Domain in the Five Domains Model. In: McMillan, F. D. (Ed.), Mental Health and Well-Being in Animals, CABI, Wallingford, UK, pp. 388–402.
Barbosa, J.; Chamelian, S. O papel do médico veterinário nos serviços assistidos com equinos: interdisciplinaridade na promoção do bem-estar do cavalo e na construção da licença social para operar. XXVI Conferência Anual da ABRAVEQ, 2026.
Lima, S; Bessa, F.; Policastro, G.; Leme, D. Manual de boas práticas para o bem-estar do cavalo nas terapias e atividades assistidas com equinos. Jundiaí-SP: Paco Editorial, 2021.





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