Montaria dupla na reabilitação: uma prática que merece reflexão
- Giulia Policastro

- há 1 dia
- 7 min de leitura

Ao longo da história dos Serviços Assistidos com Equinos, muitas práticas surgiram como resposta aos desafios encontrados pelos profissionais.
Algumas permanecem atuais. Outras foram sendo transformadas à medida que ampliamos nosso conhecimento prático aliado à ciência, pois, para garantir que um tratamento ou intervenção seja seguro, a área da saúde utiliza a Prática Baseada em Evidências (PBE).
Dentro desta perspectiva observamos que as práticas na área da reabilitação neurofuncional evoluíram muito de forma geral, e hoje já temos conhecimentos sobre quais intervenções apresentam evidência ou não.
Veja, por exemplo, o artigo publicado por Novak et al (2020) que aponta quais são práticas com evidência ou não para o público da criança e adolescente com paralisia cerebral. Este artigo deixa claro como a ciência pode ser de grande valia para trazer clareza para a nossa prática, permitindo descartar métodos e técnicas que não fazem mais sentido e nos ajudando a encorpar nosso raciocínio clínico para um fazer em saúde responsável e ético.

É importante ressaltar que neste artigo o método Hipoterapia aparece como intervenção com evidência para este público para desfechos motores, ou seja, é um sinal verde para os profissionais que atuam em parceria com o cavalo para fins de reabilitação.
Mas nem sempre foi assim. As práticas de reabilitação utilizadas na Hipoterapia há anos atrás se baseavam em conhecimentos mais rasos e se utilizavam de intervenções mais intuitivas e experimentais.
Mas graças ao avanço da ciência, tais técnicas e intervenções passaram a ser testadas e hoje, os conhecimentos avançados sobre:
neurociência
conjunto biodinâmico cavalo-cliente durante a montaria
bem-estar equino
Tornaram as intervenções com a participação do cavalo mais eficazes e validadas.
Todo esse processo faz parte da evolução de qualquer área que busca atuar com qualidade.
Afinal, boas práticas não são definidas apenas pela experiência acumulada, mas também pela disposição de revisarmos nossas decisões à luz das evidências científicas disponíveis.
É nesse contexto que gostaríamos de propor uma reflexão sobre uma prática ainda presente em muitos centros: a montaria dupla.
E te convidar a refletir sobre as decisões que antecedem essa escolha.
Antes de decidir, vale a pena fazer algumas perguntas
A montaria dupla costuma ser utilizada em diferentes situações clínicas.
Quando o cliente apresenta dificuldades para manter o equilíbrio e controle postural na postura sentada principalmente. Quando apresenta dificuldade na modulação do tônus. Ou, ainda, quando o profissional deseja realizar determinadas manipulações ou facilitações durante a intervenção.
São decisões que normalmente nascem da experiência clínica e do desejo de oferecer segurança e melhores condições para o desenvolvimento da pessoa assistida.
Mas talvez a pergunta mais importante não seja:
Como podemos manter esse cliente sobre o equino?
Talvez a pergunta seja outra:
A montaria dupla é realmente a melhor estratégia para alcançar os objetivos dessa intervenção?
Ou ainda:
Quais decisões precisam ser tomadas e quais reflexões precisam ser feitas antes de concluirmos que essa é a alternativa mais eficaz?
Manter uma postura ou favorecer a aprendizagem motora?
Talvez uma das maiores reflexões sobre a montaria dupla esteja na forma como compreendemos o objetivo da intervenção.
Em muitos casos, existe a preocupação de manter a pessoa assistida alinhada ("reta") durante todo o atendimento. Sempre que ela perde o equilíbrio, inclina o tronco ou apresenta instabilidade, nossa tendência é corrigir imediatamente sua postura ou oferecer mais apoio para que permaneça sentado "corretamente".
Mas será que esse é, de fato, o objetivo da reabilitação neurofuncional neste caso?
Hoje compreendemos que o controle postural no cavalo não é aprendido porque alguém segura o corpo do cliente da forma mais alinhada possível.
Ele é construído quando o participante vivencia desafios motores na medida, experimenta desequilíbrios, organiza respostas, e assim vai aprendendo de forma gradual a controlar seu corpo e coordenar movimentos.
É justamente nesse processo que o movimento tridimensional do equino de intervenção assume um papel fundamental.
Cada oscilação produzida pelo movimento do equino oferece oportunidades para que o sistema nervoso organize respostas motoras cada vez mais eficientes.
Em outras palavras, a intervenção não acontece apesar dos desequilíbrios. Muitas vezes, ela acontece justamente por causa deles.
E isso não significa expor o cliente a riscos desnecessários.
Significa compreender que oferecer apoio é diferente de substituir sua participação ativa na construção do aprendizado motor.
O movimento como elemento central da intervenção
O movimento do cavalo é o principal elemento da proposta terapêutica na reabilitação, mas é necessário entender a biomecânica do movimento do animal de forma aplicada, ou seja, entender como funciona o conjunto biodinâmico cavalo-cliente e como podemos manipular intencionalmente o movimento do cavalo para ganhos funcionais.
Por isso, toda decisão que modifica esse movimento merece atenção.
O que leva um cliente que faz uso de cadeiras de rodas com apoio de tronco e cabeça, que só consegue manter a postura sentada com muita ajuda, passar a ficar na posição sentada sobre o cavalo com pouca ajuda, sem montaria dupla, e assim receber os estímulos de forma assertiva para sua reabilitação?

Quando decidi-se não utilizar a montaria dupla, alguns pontos e entendimentos devem passar pelo raciocínio clínico para levar a intervenção a bom termo:
as forças (vetores) causadas pelo movimento do cavalo são anuladas entre si durante o passo do animal, por isso, é mais fácil do cliente se equilibrar com o movimento e não com o animal em estação;
a andadura utilizada é o passo, pelo fato de ser simétrica e rolada;
o alinhamento postural vem com o tempo por meio das respostas adaptativas e aprendizado motor e não porque o terapeuta fica segurando a pessoa naquela posição a qualquer custo;
a manipulação do movimento do equino para que ele caminhe em baixa frequência (média de 32 a 40 passadas por minuto) e com retidão;
manter o centro de gravidade do cliente o mais alinhado possível com o do cavalo, pois, ajuda o animal a produzir um movimento mais fluido e harmônico;
realização de pegas e posicionamentos utilizando pontos chave para manter a pessoa assistida a cavalo sem grande esforço por parte do terapeuta;
utilização do equipamento de interface que mais colabora com pontos acima, que neste caso é a sela.
Os pontos citados acima levam em consideração que a pessoa assistida estará na posição sentada de frente, o que traz uma reflexão importante. Será que evitar uma montaria dupla para deixar a pessoa deitada sobre o cavalo faz sentido?
A posição sentada de frente sobre o cavalo já possui evidência para desfechos motores nestes casos de reabilitação, diferente da posição supino e prono.
Então, se você ainda não possui conhecimento profundo sobre o que foi elencado acima, considere se vale a pena mudar seu formato de intervenção.
Toda decisão profissional também deve passar por esta pergunta: eu estou habilitado e tenho conhecimento sobre as evidências atuais disponíveis?
Não é sobre alterar sua intervenção porque alguma entidade ou profissional apontou que a montaria dupla não é mais considerada boa prática na reabilitação, é sobre realizar sua intervenção com responsabilidade e ética de acordo com o que você possui de conhecimento até este momento.
O bem-estar dos equinos também precisa fazer parte dessa decisão
Nos últimos anos, diferentes estudos demonstraram que o aumento da carga sobre o dorso do equino, e ter o peso de uma pessoa que se senta mais para trás no seu dorso, fora do gradil costal, altera sua biomecânica e faz com o animal utilize musculatura acessória e compense os movimentos, o que prejudica a qualidade da intervenção e traz prejuízos ao equino de intervenção (Lima et al, 2026).
Isso nos leva a uma reflexão importante.
Se buscamos oferecer ao cliente um movimento de qualidade, precisamos considerar como a presença de um segundo adulto pode modificar justamente o principal estímulo utilizado durante a intervenção.
Ao discutirmos montaria dupla, não podemos olhar apenas para a pessoa assistida.
Precisamos olhar também para o equino de intervenção.
Na maioria das situações, o terapeuta permanece sentado sobre a região posterior do dorso, aumentando a carga suportada pelo animal.
Hoje sabemos que fatores como peso, distribuição da carga, equipamentos utilizados e ajuste do encilhamento influenciam diretamente no conforto, na biomecânica e no bem-estar do equino.
Se defendemos uma atuação ética, precisamos reconhecer que qualidade da intervenção e bem-estar equino caminham juntos.
Não é possível separar um do outro.
Antes da montaria dupla, outras decisões precisam ser tomadas
Talvez a principal reflexão não seja sobre a montaria dupla em si.
Mas sobre tudo aquilo que deveria ser avaliado antes que ela se torne a primeira opção.
Estamos utilizando o equino mais adequado para aquele cliente?
Seu padrão de movimento atende aos objetivos da intervenção?
Sua altura facilita a montaria e oferece segurança?
Estamos utilizando o equipamento mais adequado para favorecer o posicionamento funcional?
O encilhamento permite que o cliente consiga organizar seus próprios ajustes posturais?
Existe outra estratégia de intervenção capaz de promover os mesmos objetivos sem modificar significativamente o movimento do equino?
Essas perguntas fazem parte do raciocínio clínico.
E talvez sejam mais importantes do que responder simplesmente se a montaria dupla deve ou não ser utilizada.
Uma área que evolui também revisita suas práticas
A área dos Serviços Assistidos com Equinos evoluiu muito nas últimas décadas.
Hoje compreendemos melhor o desenvolvimento humano.
Conhecemos mais sobre aprendizagem motora.
Produzimos mais pesquisas.
E também ampliamos significativamente nosso conhecimento sobre comportamento, biomecânica e bem-estar dos equinos.
Esse avanço nos convida a revisitar práticas que, durante muito tempo, fizeram parte da rotina de muitos centros.
Não porque estavam necessariamente erradas.
Mas porque hoje sabemos mais do que sabíamos ontem.
Uma área comprometida com a ciência não tem receio de rever suas práticas. Ao contrário. Entende que evoluir significa continuar fazendo perguntas.
Talvez, diante da montaria dupla, a questão mais importante não seja:
"Podemos fazer?"
Mas sim:
"Depois de avaliarmos a pessoa assistida, o equino, os objetivos da intervenção, os equipamentos disponíveis e todas as alternativas possíveis, essa continua sendo a melhor decisão?"
Na ABRE, acreditamos que decisões de qualidade nascem da integração entre conhecimento científico, raciocínio clínico e respeito aos equinos de intervenção.
Mais do que defender ou condenar práticas, nosso compromisso é estimular reflexões que contribuam para intervenções cada vez mais seguras, éticas, fundamentadas em evidências e comprometidas tanto com o desenvolvimento das pessoas quanto com o bem-estar dos equinos que caminham ao nosso lado.





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