top of page
Buscar

Afinal, o que é a atuação interdisciplinar nos Serviços Assistidos com Equinos?

Foto do escritor: ABRE
ABRE
9 de set.
5 min de leitura

Uma das maiores riquezas dos Serviços Assistidos com Equinos é a diversidade de profissionais que fazem parte dessa área, como, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, pedagogos, fonoaudiólogos, educadores físicos, zootecnistas, médicos veterinários e instrutores de equitação.


É uma grande rede com diferentes disciplinas que contribuem para promover, direta ou indiretamente, o desenvolvimento de pessoas em parceria com os equinos de intervenção.


Na área dos Serviços Assistidos com Equinos existe uma condição sine qua non, que é o trabalho de uma equipe multidisciplinar. E o que isso quer dizer? Que nessa área uma andorinha só não faz verão. Por mais que a entrega do serviço prestado possa acontecer por um único profissional, indiretamente, para que tudo ocorra da melhor forma, existe um ou mais profissionais nos bastidores que cuidam e preparam os animais no dia a dia. 


E nem todos os Serviços Assistidos com Equinos são organizados e entregues da mesma forma. Existem metodologias e abordagens conduzidas sim por um único profissional, mas existem outras desenvolvidas por equipes compostas por diferentes áreas de conhecimento. 


Principalmente em serviços voltados ao tratamento em saúde, é bastante comum encontrarmos equipes formadas por profissionais de diferentes disciplinas. E é justamente nesse contexto que uma pergunta merece nossa atenção:

O que, de fato, significa trabalhar de forma interdisciplinar?


A resposta não está apenas na presença de vários profissionais em um mesmo serviço. Também não depende de um profissional dominar conhecimentos de todas as áreas envolvidas.


A interdisciplinaridade está relacionada à maneira como os profissionais dialogam, compartilham informações, constroem objetivos e organizam o trabalho em torno das necessidades multifacetadas das pessoas assistidas.


Trabalhar junto não é, necessariamente, trabalhar de forma interdisciplinar.


A maneira como compreendemos esse conceito influencia diretamente na organização das equipes, a responsabilidade técnica e ética de cada profissional e, principalmente, a qualidade da assistência e tratamento oferecidos.


Existem equipes em que cada profissional realiza seu atendimento de forma independente, define seus próprios objetivos e compartilha poucas informações com os demais. Nesses casos, estamos diante de uma atuação multidisciplinar, na qual diferentes saberes coexistem, mas com pouca ou quase nenhuma troca ou diálogo.


Na atuação interdisciplinar, o cenário é diferente, a prática é participativa e inclusiva!


A equipe compartilha informações, discute o caso, constrói objetivos em conjunto e busca compreender a pessoa assistida de forma integrada. As decisões deixam de ser isoladas para serem construídas coletivamente, sempre com foco nas necessidades da pessoa atendida.


Mas existe um ponto que merece atenção.


Construir objetivos e uma rede transversal de cuidado em conjunto, não significa que todos executam as mesmas funções.



Objetivos compartilhados. Responsabilidades técnicas e éticas individuais. As ações da equipe estão integradas e os lugares definidos. 


Em uma equipe interdisciplinar, cada intervenção continua sendo conduzida pelo profissional habilitado para realizá-la.


É esse profissional que utiliza o conhecimento técnico, os recursos e as estratégias da sua profissão para contribuir com os objetivos definidos pela equipe.


Em outras palavras, a interdisciplinaridade não elimina as responsabilidades individuais. Ela amplia o olhar e o saber de cada profissional, fortalece o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, preservando a identidade, as competências e a responsabilidade técnica e ética de cada profissão.


Talvez seja justamente esse um dos maiores equívocos quando falamos sobre interdisciplinaridade.


Ela não pressupõe que um único profissional saiba fazer um pouco de tudo.


Ela pressupõe que diferentes profissionais saibam construir juntos.


Nenhum profissional domina profundamente todas as áreas do conhecimento.


Na prática interdisciplinar, devido às trocas e comunicação transversal, temos profissionais transformados, com conhecimentos ampliados.


Porém, um fisioterapeuta continua sendo fisioterapeuta.


Um psicólogo continua sendo psicólogo.


Um pedagogo continua sendo pedagogo.


Um instrutor de equitação continua sendo um instrutor de equitação.


E isso não representa uma limitação.


Pelo contrário.


É justamente essa diversidade de conhecimentos que possibilita que as intervenções com equinos voltadas ao tratamento em saúde atendam diferentes públicos, necessidades e objetivos.


Cada profissional contribui a partir de sua formação e de suas competências, oferecendo recursos específicos para as necessidades da pessoa atendida. 


Talvez o desafio não seja formar profissionais que façam tudo.


Talvez o verdadeiro desafio seja formar profissionais que:

  • dominem profundamente sua própria área de atuação e como podem atuar em parceria com os cavalos;

  • compreendam o suficiente sobre as demais profissões para dialogar de forma qualificada e respeitosa;

  • reconheçam os limites éticos da sua atuação;

  • respeitem as competências dos outros profissionais;

  • e sejam capazes de construir decisões coletivas, sempre centradas nas necessidades das pessoas e famílias assistidas.


O exemplo existe em muitas áreas, como a da saúde.


Talvez um exemplo ajude a refletir sobre esse conceito.


Imagine uma equipe que atua em um hospital. Todos trabalham em prol do mesmo paciente. Compartilham informações, discutem o caso, e têm um objetivo em comum: promover a melhor assistência possível.


Ainda assim, cada profissional realiza sua intervenção dentro das competências e limites da sua profissão.


O cardiologista não executa a intervenção do fisioterapeuta.


O fisioterapeuta não realiza a intervenção do nutricionista.


O psicólogo não assume a função do médico.


Todos participam do cuidado do mesmo paciente, mas cada um contribui a partir do conhecimento técnico pautado na sua profissão.


Não existe todo mundo faz tudo. O que seria um grande equívoco quando falamos de interdisciplinaridade.


Nos Serviços Assistidos com Equinos, a lógica da interdisciplinaridade também nos convida a essa reflexão.


É verdade que, muitas vezes, a pessoa assistida frequenta o centro apenas uma vez por semana e que diferentes profissionais podem discutir conjuntamente seus objetivos.


Mas isso não significa, necessariamente, que todos conduzirão ou serão responsáveis pela intervenção, e nem que todos precisam participar da mesma sessão ou que um único profissional deva incorporar estratégias próprias de outras profissões.


A construção do plano terapêutico ou educacional pode ser coletiva. Os objetivos podem ser compartilhados. O olhar e intervenção da equipe pode ser interdisciplinar. Mas cada  profissional, em sua ação, deve se responsabilizar de forma técnica e ética pela intervenção prestada. 


Talvez esse seja um dos maiores desafios: construir equipes que dialoguem cada vez mais, sem perder a clareza sobre as competências e a responsabilidade técnica de cada profissão.


Porque uma equipe interdisciplinar não é aquela em que um profissional faz um pouco de tudo. É aquela em que diferentes profissionais constroem juntos um plano de cuidado, e cada um contribui, de forma qualificada, com aquilo que sabe fazer melhor.


A força da equipe não está em profissionais que fazem tudo.


Ela está na capacidade de diferentes áreas do conhecimento dialogarem, planejarem juntas e reconhecerem o valor da contribuição de cada integrante.


À medida que os Serviços Assistidos com Equinos crescem, também cresce a necessidade de construirmos uma linguagem comum e uma compreensão cada vez mais clara sobre nossos processos de trabalho.


Mais do que discutir definições, refletir sobre interdisciplinaridade é refletir sobre a qualidade da nossa atuação.


Quando compreendemos que o plano de intervenção pode ser construído coletivamente, mas que cada profissional permanece responsável pela condução técnica da sua própria intervenção, fortalecemos não apenas o trabalho em equipe, mas também a segurança da pessoa assistida, o respeito entre as profissões e a credibilidade da nossa área.


Talvez essa seja uma boa reflexão para todos nós.


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page