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Aprendizagem assistida com cavalos: possibilidades para a pedagogia e a psicopedagogia

Foto do escritor: ABRE
ABRE
há 1 dia
9 min de leitura

Quando falamos em aprendizagem, é comum pensarmos na escola, nos livros, nas atividades pedagógicas e nos conteúdos organizados em sala de aula.


Também associamos  aprendizagem aos consultórios, às avaliações e às intervenções planejadas em ambientes clínicos quando a criança apresenta dificuldade ou transtorno de aprendizagem.


Mas será que a aprendizagem acontece somente nesses espaços?

A aprendizagem também pode surgir em situações concretas, nas relações, no movimento, na experimentação e na maneira como cada pessoa responde aos desafios que encontra.


É nessa perspectiva que a pista, o ambiente equestre e a presença dos equinos podem oferecer possibilidades significativas para processos de ensino, aprendizagem e desenvolvimento de habilidades.


Não porque o cavalo ensine sozinho ou produza automaticamente algum resultado, mas porque o ambiente equestre pode criar situações reais e desafiadoras, nas quais a pessoa assistida é convidada a observar, experimentar, decidir, agir e reorganizar suas ações.


Aprendizagem para além da sala de aula

O ambiente escolar, acadêmico e o consultório são espaços fundamentais para o desenvolvimento. Cada um possui objetivos, métodos e recursos próprios.


No entanto, alguns processos de aprendizagem podem se tornar mais significativos quando acontecem em contextos nos quais a pessoa assistida precisa ativamente se relacionar com o ambiente, com outras pessoas, com materiais e com situações que não podem ser totalmente previstas.


Aprender no contexto do cavalo não é apenas reagir ao que acontece, envolve processos ativos, como:

  • experimentar;

  • tentar novamente;

  • lidar com o inesperado;

  • observar consequências;

  • fazer escolhas;

  • resolver problemas;

  • adaptar estratégias;

  • comunicar necessidades;

  • e construir novas possibilidades de ação.


Esses processos não acontecem apenas quando alguém recebe uma explicação ou realiza uma atividade em uma folha de papel.

Muitas vezes, aprendemos porque vivenciamos uma situação, refletimos sobre ela e encontramos novas maneiras de responder ao que aconteceu.


Essa é a chamada aprendizagem experiencial, e ela se encaixa perfeitamente no contexto equestre, pois, as formas de aprendizado e desenvolvimento são ativas, dão protagonismo absoluto ao aprendiz, tirando-o da posição de mero espectador receptivo (ensino passivo) para torná-lo o construtor do seu próprio conhecimento (Stock K., Kolb D, 2021).


A retenção real da informação e o desenvolvimento de habilidades ocorrem por meio da ação, experimentação, reflexão profunda e resolução de problemas práticos.


E para que uma experiência se transforme em uma oportunidade de aprendizagem, é necessária a atuação de um profissional com habilidades para facilitar e mediar processos, capaz de definir objetivos, organizar propostas, oferecer apoio e ajudar a pessoa assistida a elaborar o que foi vivido.


O que torna o ambiente equestre singular?

O cavalo não faz parte do cotidiano da maioria das pessoas. Sua presença modifica o ambiente e convida o aprendiz a estabelecer uma relação com um ser vivo, sensível e diferente dos objetos encontrados em uma sala de aula ou em um consultório.


O equino se movimenta, reage aos estímulos de forma genuína e sem julgamentos, apresenta comportamentos próprios e exige que a pessoa esteja atenta ao que acontece ao seu redor.

A pessoa assistida pode precisar observar o cavalo, compreender uma orientação, organizar uma sequência, ajustar o próprio corpo, escolher uma estratégia, lidar com a espera ou buscar uma solução diante de uma situação inesperada.


A pista e o ambiente equestre oferecem, portanto, um contexto rico em possibilidades de exploração e aprendizagem ativa.

Mas essas possibilidades não acontecem automaticamente. Elas dependem da facilitação e mediação do profissional.


O cavalo não produz aprendizagem sozinho

A presença do equino pode trazer desafios porque ele não é um elemento comum ou totalmente previsível.


Uma atividade planejada pode envolver a necessidade de:

  • aproximar-se do cavalo;

  • observar seus sinais;

  • organizar materiais;

  • seguir uma sequência;

  • conduzir uma ação;

  • tomar uma decisão;

  • ajustar o movimento;

  • modificar uma estratégia;

  • lidar com a frustração;

  • ou encontrar uma solução diferente.


Essas situações podem favorecer aprendizagens importantes.


No entanto, o cavalo não produz aprendizagem sozinho.


É o profissional que transforma uma experiência em uma proposta com intencionalidade pedagógica, psicopedagógica ou de desenvolvimento. É ele quem define o objetivo, organiza os recursos, oferece os apoios necessários, acompanha as respostas e ajuda a pessoa a atribuir significado ao que vivenciou.


Sem planejamento, uma atividade pode ser apenas uma experiência bonita ou marcante, mas que não produz de fato um aprendizado.


Conteúdos pedagógicos também podem chegar à pista

Trabalhar com aprendizagem no ambiente equestre não significa abandonar os conteúdos pedagógicos nem simplesmente reproduzir na pista a mesma atividade realizada em sala de aula.


O desafio está em elaborar e estruturar os objetivos e processos pedagógicos pensando nas características do ambiente equestre, criando propostas que façam sentido para a pessoa assistida.


Se o objetivo é incentivar a leitura, por exemplo, o profissional pode utilizar letras e palavras relacionadas à experiência vivida. O pessoa pode ser convidada a:

  • ler o nome dos cavalos;

  • identificar placas e sinais do ambiente;

  • montar um circuito na pista usando com referência letras do adestramento ou outras;

  • reconhecer palavras como sela, escova, baia e pista;

  • seguir instruções escritas;

  • escolher materiais a partir de etiquetas;

  • ler pequenos cartões com desafios;

  • ou localizar o nome de um animal ou objeto;

  • fazer um registro escrito do aprendizado do dia.


Nesse caso, a leitura deixa de ser uma atividade descontextualizada. A palavra escrita passa a representar algo concreto e presente na experiência.


A escrita também pode ser trabalhada a partir de situações do ambiente equestre.  A pessoa atendida pode escrever o próprio nome, o nome dos cavalos, uma lista de tarefas, uma frase sobre a atividade, uma ficha simples de cuidados ou uma pequena história sobre um equino. 


Para crianças em processo de alfabetização, podem ser utilizados cartões personalizados com imagens dos cavalos, letras móveis, fichas com nomes, jogos de associação entre imagem e palavra e atividades de identificação de letras e sílabas.


Também é possível criar um livro dos cavalos, um mural de palavras, um catálogo dos materiais da pista ou um diário de experiências.


A personalização dos materiais pode aumentar o envolvimento e tornar o conteúdo mais significativo. Quando uma criança escreve o nome de um cavalo com o qual estabeleceu uma relação, a atividade pode ganhar um sentido diferente daquele produzido por uma lista de palavras sem conexão com sua realidade.


Matemática, organização e resolução de problemas

O ambiente equestre também pode oferecer oportunidades para trabalhar conteúdos relacionados à matemática e à organização.


Dependendo dos objetivos, podem ser propostas atividades envolvendo:

  • contagem de materiais;

  • comparação de tamanhos;

  • classificação de objetos;

  • sequência de tarefas;

  • noções de quantidade;

  • localização espacial;

  • organização de horários;

  • e resolução de problemas.


A pessoa pode contar quantas escovas serão necessárias, organizar os materiais em determinada ordem, comparar objetos, identificar posições na pista ou acompanhar uma sequência visual.


Essas propostas permitem que os conteúdos sejam trabalhados em situações concretas, de forma ativa, nas quais a pessoa atendida pode observar, manipular, experimentar e verificar os resultados de suas ações.


O papel do pedagogo e do psicopedagogo

Para pedagogos e psicopedagogos, o ambiente equestre pode ampliar as possibilidades de observação e intervenção nos processos de aprendizagem.


A presença do equino permite acompanhar como a pessoa assistida:

  • compreende orientações;

  • organiza uma sequência;

  • inicia uma atividade;

  • mantém o envolvimento;

  • lida com erros;

  • reage diante de mudanças;

  • procura ajuda;

  • comunica o que precisa;

  • resolve problemas;

  • e transfere o que aprendeu para outras situações.


Essas observações precisam considerar a história do participante, seus contextos de vida, suas formas de comunicação, seus recursos e suas dificuldades.


O ambiente equestre não substitui a escola, a família ou outros espaços de aprendizagem. Ele oferece um contexto diferente, vivo, no qual determinados conteúdos e habilidades podem ser trabalhados de maneira mais concreta, dinâmica e significativa.


O papel do profissional não é simplesmente propor atividades com o cavalo ou simplesmente transpor tarefas da escola para o cavalo. É compreender como aquela experiência pode contribuir para os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento de habilidades.


A aprendizagem acontece no corpo e na experiência

Em muitas atividades com os equinos, não se aprende apenas ouvindo uma explicação. Se aprende enquanto faz.


Pode ser necessário pensar sobre o que precisa ser realizado, movimentar-se de determinada maneira, observar o comportamento do animal, perceber o próprio corpo, lidar com uma emoção e tomar uma decisão.


A aprendizagem, portanto, não fica restrita puramente ao plano cognitivo. Ela também envolve o corpo, o movimento, a percepção, a afetividade e a relação com o ambiente.


Por isso o ciclo da aprendizagem experiencial de de Kolb (Vivenciar → Refletir → Conceitualizar → Praticar) fecha-se perfeitamente à atividade com os cavalos: a pessoa assistida vivencia com o cavalo, reflete com a ajuda do facilitador, extrai um conceito/ aprendizado e o aplica novamente em tempo real para obter uma resposta diferente do animal.


Uma pessoa pode compreender uma orientação verbalmente, mas é durante a realização da atividade que percebe o que aquela orientação significa na prática.


Pode descobrir que precisa diminuir o ritmo, esperar o momento adequado, mudar uma estratégia ou pedir ajuda diante de uma dificuldade.


Nesse processo, o conhecimento deixa de ser apenas uma informação recebida e passa a ser algo experimentado.


Vivenciar não é o mesmo que aprender

Vivenciar uma situação não significa, automaticamente, aprender com ela.


Por isso, é importante que o profissional ajude o aprendiz a retomar e elaborar o que aconteceu:

  • O que você precisou fazer?

  • O que foi mais fácil?

  • O que foi mais difícil?

  • O que você percebeu?

  • O que fez quando encontrou um problema?

  • Que palavra nova aprendeu?

  • Onde mais podemos encontrar essa palavra?

  • Essa situação se parece com algo que acontece em outros lugares?


Esse momento de elaboração ajuda a transformar a experiência em conhecimento.

A aprendizagem pode começar na pista, mas não precisa terminar nela. A palavra lida no ambiente pode aparecer em um livro. A sequência de tarefas pode ajudar na organização da rotina. A estratégia utilizada diante de um desafio pode ser retomada em outra situação.


É nesse movimento entre experiência, reflexão e aplicação que a aprendizagem ganha continuidade.


O respeito ao equino também faz parte da aprendizagem


Uma proposta de aprendizagem assistida com equinos precisa considerar o bem-estar do animal em todas as etapas.


O equino não é um recurso passivo, nem está disponível de maneira ilimitada para qualquer atividade. Ele é um ser senciente, com necessidades, comportamentos e limites próprios.


Ensinar a pessoa assistida a observar seus sinais, respeitar seu espaço e reconhecer situações de conforto ou desconforto também pode fazer parte do processo educativo.


Essa aprendizagem contribui para uma relação mais ética e responsável com os animais.


A pessoa não aprende apenas a realizar uma tarefa com o equino. Pode aprender também que toda relação exige atenção, respeito, comunicação e consideração pelo outro.


Mais do que levar o cavalo para a aprendizagem

Trabalhar com aprendizagem no ambiente equestre não significa simplesmente transportar para a pista as mesmas atividades realizadas na sala de aula ou no consultório. 


Pode soar até estranho ver uma criança com jogo de tabuleiro em cima de um cavalo, sem que o animal ali tenha um papel ativo definido e que o considere como ser vivo e não objeto.


E também não significa utilizar o cavalo como justificativa para atividades sem objetivos definidos.


O ambiente equestre possui características próprias. Ele permite experiências inerentes à sua natureza, envolve movimento, relação, percepção, escolhas, desafios e acontecimentos inesperados.


Cabe ao profissional reconhecer essas possibilidades e transformá-las em propostas coerentes com os objetivos.


A qualidade do trabalho não está apenas na presença do equino, mas na forma como o profissional planeja, conduz, observa e elabora cada experiência.


O objetivo não é substituir a sala de aula.


É ampliar os contextos nos quais a aprendizagem pode acontecer.


A força do ambiente equestre está na possibilidade de integrar pensamento, corpo, movimento, emoção, relação, conteúdo e experiência.


O equino não é professor, terapeuta ou responsável pelo resultado da intervenção.


Ele participa de uma relação cuidadosamente planejada por profissionais, em um contexto que pode favorecer novas experiências de aprendizagem, desenvolvimento e participação.


Quando essa proposta é conduzida com intencionalidade, segurança, qualificação profissional e respeito ao equino, a pista pode se tornar um espaço potente de aprendizagem.


Não porque o cavalo ensina sozinho.

Mas porque, em parceria com profissionais preparados, ele participa de experiências que ajudam a pessoa a compreender, agir, sentir, escolher e construir novas possibilidades.



Referência bibliográfica:

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