Nem ferramenta. Nem terapeuta. Afinal, qual é o papel do equino?

Quando falamos nos Serviços Assistidos com Equinos, uma pergunta surge com frequência:
Qual é, afinal, o papel do equino nesse processo?
Ele é um terapeuta?
É uma ferramenta de trabalho?
É um recurso utilizado pelos profissionais?
À primeira vista, essas podem parecer apenas diferentes formas de nomear o animal. Mas as palavras que escolhemos revelam muito sobre a forma como compreendemos a relação com o cavalo e as formas de atuação em conjunto com ele.
Quando chamamos o equino de "ferramenta", estamos atribuindo a ele um determinado papel. Quando o chamamos de "terapeuta" ou "coterapeuta", atribuímos outro.
E quando utilizamos o termo equino de intervenção, expressamos uma compreensão diferente, construída a partir da evolução da ciência, da ética e do conhecimento sobre comportamento e bem-estar animal.
Mais do que uma discussão sobre nomenclatura, essa é uma reflexão sobre como enxergamos o cavalo e qual é, de fato, seu papel nos Serviços Assistidos com Equinos.
Muito além de uma simples escolha de palavras
As palavras que utilizamos ajudam a construir a forma como pensamos.
Quando chamamos um equino de "ferramenta", "instrumento" ou "recurso terapêutico", corremos o risco de reduzir um ser vivo a um objeto de trabalho.
Ferramentas são objetos inanimados.
Podem ser substituídas.
Não sentem dor.
Não apresentam emoções.
Não precisam de descanso, treinamento ou bem-estar.
Os equinos são exatamente o oposto.
São seres sencientes, capazes de perceber o ambiente, responder aos estímulos, estabelecer relações sociais e expressar sinais de conforto, desconforto, medo, dor e estresse.
Reconhecer essa condição é o primeiro passo para uma atuação verdadeiramente ética.
O que pode ser um desafio para muitos profissionais que foram engolidos por uma lógica de atuação muito comum nos dias de hoje. Você já pode ter presenciado uma cena como esta: o profissional chega ao centro equestre, usa o cavalo para a sua intervenção, devolve e vai embora, em um processo quase que mecanicista.
Mas o equino também não é o terapeuta
Se, por um lado, não devemos tratar o equino como um objeto, por outro também precisamos evitar um equívoco bastante comum: atribuir ao animal funções que pertencem ao profissional.
Expressões como "cavalo terapeuta", "coterapeuta" ou até "anjo de quatro patas" costumam nascer do carinho e da admiração que muitas pessoas desenvolvem pelos equinos.
Embora bem intencionadas, essas expressões não representam corretamente o papel do animal dentro dos Serviços Assistidos com Equinos.
O equino não planeja uma intervenção.
Não estabelece objetivos terapêuticos.
Não escolhe estratégias de ensino.
Não realiza avaliações.
Nem toma decisões clínicas.
Essas responsabilidades pertencem exclusivamente ao profissional habilitado, que atua dentro de sua formação, de sua competência técnica e das normas estabelecidas por seu conselho profissional.
Quando atribuímos ao equino intenções ou ações humanas, corremos o risco de romantizar sua participação e deixar de percebê-lo como um animal que possui necessidades e comportamentos próprios de sua espécie, o que pode trazer consequências importantes que vão atentar contra o seu bem-estar.
Então, qual é o papel do equino?
O equino ocupa um lugar único.
Ele não é um objeto.
Também não é responsável por desempenhar funções humanas.
Ele é um parceiro vivo, senciente e participante ativo da experiência.
Sua presença, seu comportamento e seu movimento tornam possível uma interação que nenhum equipamento seria capaz de reproduzir.
Em alguns segmentos, seu movimento tridimensional oferece estímulos fundamentais para uma intervenção com foco na reabilitação, por exemplo.
Em outros, sua sensibilidade às respostas humanas favorece processos de aprendizagem, desenvolvimento de habilidades, autorregulação, comunicação e desenvolvimento pessoal.
Em todos os casos, o animal participa da intervenção preservando aquilo que ele sempre foi: um equino.
É justamente essa autenticidade que torna essa parceria tão valiosa.
Por que utilizamos o termo "equino de intervenção"?
É justamente por esse entendimento que adotamos a expressão equino de intervenção (Fine et al, 2024).
Essa nomenclatura reconhece que o animal desempenha um papel fundamental na experiência, sem atribuir a ele responsabilidades que não lhe pertencem e sem reduzi-lo à condição de objeto.
Ela representa uma visão mais ética, mais científica e mais respeitosa da relação entre pessoas e equinos.
Ao mesmo tempo, reforça a responsabilidade técnica dos profissionais e destaca a necessidade de garantir condições adequadas de manejo, treinamento, seleção, descanso e bem-estar para cada equino que participa dos Serviços Assistidos com Equinos.
E você, como enxerga esse tema?
Compartilhe sua reflexão nos comentários. A troca de experiências e diferentes perspectivas fortalece nossa comunidade e contribui para o crescimento dos Serviços Assistidos com Equinos.
Fine, A. H., Mueller, M., Ng, Z., Chastain Griffin, T., & Tedeschi, P. (Eds.). (2024). Handbook on animal-assisted therapy: Theoretical foundations and guidelines for practice (6th ed.). Academic Press.





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