A eficácia dos Serviços Assistidos com Equinos para o público da pessoa com transtorno do espectro autista (TEA)
- ABRE

- há 23 horas
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Muitos estudos têm sido publicados trazendo evidências quanto a eficácia dos Serviços Assistidos com Equinos para o público da pessoa com TEA, especialmente para crianças e adolescentes.
É comum encontrarmos relatos de famílias, profissionais e instituições descrevendo mudanças e ganhos importantes em crianças que passam pelas intervenções com os cavalos.
Mas, ao mesmo tempo, uma pergunta merece ser feita:
O que a ciência realmente tem demonstrado?
Mais do que procurar respostas simples, compreender o que as pesquisas mostram — e também reconhecer aquilo que ainda não sabemos — é uma forma de oferecer intervenções cada vez mais éticas, seguras e fundamentadas em evidências.
O número de pesquisas cresceu
Há duas décadas, existiam poucos estudos sobre o tema e ainda nem haviam revisões sistemáticas registradas na área da saúde e bem-estar.
Hoje, esse cenário mudou significativamente. A prova disso é o número de revisões sistemáticas cadastradas no PROSPERO, que é uma plataforma de registro internacional de revisões sistemáticas na área da saúde e bem-estar. Só neste ano de 2026 podemos observar 9 revisões cadastradas, um número antes nunca alcançado.

Nos últimos anos, houve um crescimento expressivo na produção científica envolvendo pessoas com TEA e intervenções com equinos.
Esse crescimento demonstra que a área está amadurecendo.
Mas crescimento científico também significa fazer perguntas cada vez mais específicas.
O que as pesquisas apontam?
De maneira geral, as evidências demonstram benefícios e melhora da:
comunicação social;
cognição social;
regulação comportamental;
e coordenação motora.
Sabemos que existem ainda limitações e considerações nos estudos. É possível identificar dificuldades e desafios específicos, como:
não conseguir detalhar especificamente qual serviço assistido com equinos está sendo oferecido e demonstrar um passo a passo claro da intervenção aplicada.
resposta variável: nem todos os indivíduos com TEA respondem da mesma forma, e os níveis de suporte influenciam diretamente os resultados.
acesso e custo: as sessões podem ser caras e exigem instalações especializadas e pessoal treinado.
falta do perfil do equino de intervenção.
ausência da descrição de equipamentos de encilhamento usados quando realizadas atividades de montaria.
Entender todo o panorama é importante, por isso, para além de ver os benefícios já encontrados e desfechos que nos mostram evidências, também é necessário olhar para os desafios e dificuldades.
Reconhecer resultados promissores não significa afirmar que todas as pessoas com TEA responderão da mesma maneira ou que qualquer intervenção com equinos produzirá os mesmos efeitos, ou até mesmo que qualquer pessoa com TEA se beneficiará das intervenções pensando nos desfechos já apontados acima.
A ciência nos convida justamente a olhar para essas diferenças.
Por isso, comparar resultados entre diferentes estudos ainda é um desafio.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes oportunidades para o desenvolvimento da nossa área: descrever melhor aquilo que fazemos.
O equino não é o tratamento
As pesquisas não demonstram que o simples contato com um equino produz, por si só, determinados resultados.
Os possíveis benefícios estão relacionados a intervenções planejadas, conduzidas por profissionais qualificados, com objetivos definidos e com a participação intencional do equino de intervenção dentro de uma proposta estruturada.
Ou seja:
não é apenas a presença do equino que faz diferença. É a qualidade da intervenção construída em parceria com ele.
Isso nos leva a uma reflexão importante.
Se duas intervenções utilizam equinos, mas possuem objetivos, profissionais, estratégias, características dos equinos, equipamentos e formas de condução diferentes, podemos realmente considerá-las a mesma intervenção?
Essa é uma pergunta importante para quem produz conhecimento e para quem atua na prática.
O futuro da pesquisa está nas perguntas
Talvez a principal mudança dos últimos anos esteja justamente na forma de perguntar.
Durante muito tempo, a pergunta era:
“Os equinos ajudam pessoas com autismo?”
Hoje, podemos fazer perguntas muito mais importantes:
Qual faixa etária?
Qual nível de suporte?
Quais desfechos?
Quais objetivos?
Em quais condições?
Com quais estratégias?
Quais componentes da intervenção podem influenciar os resultados?
O foco deixa de ser apenas investigar se as intervenções com equinos podem trazer benefícios para pessoas com TEA e passa a ser compreender o que é feito, como é feito e quais resultados realmente importam para a pessoa e sua família.
Essa mudança parece simples, mas representa um avanço importante.
Nenhuma intervenção deve ser defendida apenas pela ideia de que a interação entre humanos e equinos é benéfica.
É preciso descrever claramente a intervenção, justificar as escolhas realizadas, definir objetivos e avaliar os resultados.
O que estamos fazendo precisa ser descrito
Se queremos produzir evidências mais consistentes, talvez precisemos começar por perguntas muito básicas sobre a nossa própria prática:
Estamos descrevendo com clareza o que estamos fazendo?
Sabemos explicar por que escolhemos determinado equino, equipamento ou atividade?
Qual mecanismo de mudança esperamos alcançar?
Quais objetivos estamos buscando?
Quais desfechos queremos avaliar?
Como sabemos que houve mudança?
E, talvez a pergunta mais importante:
Essa mudança fez diferença na vida da pessoa com TEA e de sua família?
O futuro dos Serviços Assistidos com Equinos
Os estudos feitos até aqui já demonstram os benefícios para este público, mas precisamos avançar nas evidências. O futuro dos Serviços Assistidos com Equinos está em compreender quais intervenções realmente fazem diferença, para quem, em quais condições e por quais mecanismos.
Isso exige pesquisa.
Exige profissionais qualificados.
Exige descrição clara das práticas.
Exige avaliação de resultados.
Exige diálogo entre diferentes áreas do conhecimento.
E exige também reconhecer os limites das evidências que temos hoje.
A ciência não enfraquece uma área quando mostra que ainda existem perguntas sem resposta.
Ela fortalece a área quando nos dá melhores perguntas para investigar.
É esse tipo de reflexão que pode nos ajudar a construir Serviços Assistidos com Equinos cada vez mais qualificados, responsáveis e fundamentados em evidências — com intervenções pensadas para as necessidades das pessoas e uma atuação que respeite, em todas as etapas, os equinos de intervenção.
Porque fortalecer uma área não é apenas afirmar que ela funciona. É ter coragem para investigar como, quando, para quem e em que condições ela funciona.





Muito bom o artigo. Como neuropsicóloga sinto que existem lacunas em relação as avaliações antes da intervenção para mapear o funcionamento dos indivíduos com TEA. Por exemplo: Quais comportamentos poderiam ser alvos de intervenções? Quais recursos estão presentes? Os transtornos do neurodesenvolvimento são hetereogêneos e podem ter necessidades diferentes entre dois indivíduos e quanto mais pudermos individualizar as intervenções, melhor. Além disso ter escalas e instrumentos direcionados a criança com TEA na intervenção com Equinos especificamente, validadas e normatizadas ajudaria não só na prática como nas evidências. Na área da psicologia desconheço instrumentos assim e acabamos tendo que adaptar, o que torna mais difícil para evidenciar o monitoramento e avaliar antes, durante e depois. Estou iniciando na área dos Equin…